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Una Cancion de Sangre

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Una Cancion de Sangre

Mensagem por Goldfield em Ter Dez 03, 2013 4:55 pm

Classificação: Maiores de 16 Anos
Tipo: Drama, Terror, Ação.
Restrições: Violência.



SINOPSE: Uma cantiga de criança, um povo exterminado... E memórias de sangue envolvendo a batalha por uma ponte, uma morena ali deixada... e a Guerra do Paraguai.


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Una Cancion de Sangre

I

Fui ao Itororó
Beber água e não achei
Mas achei bela morena
Que no Itororó deixei...


A voz aguda e pueril das crianças brincando de roda na rua ecoava pelo bairro de Santa Teresa, gerando encanto e douradas recordações da infância na maioria dos ouvintes – mas, nele, apenas a repulsa gerada por terríveis lembranças. Grande parte daqueles que entoavam aquela cantiga, principalmente os jovens inocentes, desconhecia por completo sua origem; aqueles que dela tinham ciência não a associando a nada senão angústia e dor. E, em mais uma das ironias que permeavam a vida, deu-se conta de que a guerra, inconscientemente, se tornara brincadeira de criança.
Tentando se livrar do incômodo som, e da excessiva claridade, saiu de perto da janela do andar superior, embora assim se entregasse ao calor da tarde quente de novembro. A si, era um preço que estava disposto a pagar. Descendo pelas escadas da casa que erguera com a compensação dada pelo Imperador por sua “distinta” participação na guerra, no quinhão de terra em Santa Teresa também concedido pela Coroa, procurou no térreo algum canto em que tivesse sossego de mente – algo, em sua opinião, cada vez mais difícil de alcançar. Concluindo a descida, levou uma mão ao bolso, num gesto automático, em busca de rapé para atenuar a ansiedade... os dedos não encontrando nada e fazendo-o se lembrar de que tentava abandonar o hábito. Sobre a mesinha de madeira da sala, o envelope com a correspondência que lhe gerava incerteza desde o princípio da manhã. Após um instante de hesitação, apanhou-o novamente e abriu-o. Talvez ler mais uma vez o conteúdo o ajudasse a tomar sua decisão.
Os dedos calejados retiraram do invólucro o cartão dobrado cuja capa ostentava uma gravura do admirável castelo da Ilha Fiscal, concluído recentemente, sob as bandeiras da República do Chile e do Império do Brasil entrecruzadas, junto aos ornamentados dizeres “Homenagem ao Chile”. Dentro do papel, em grafia rebuscada, estava inscrita a seguinte mensagem, que o destinatário já lera no mínimo uma dezena de vezes desde sua entrega:


Bilhete de Ingresso
INTRANSFERÍVEL


Baile na Ilha Fiscal offerecido á officialidade do Encouraçado Chileno Almirante Cochrane pelo Prezidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto.

O tal baile de que tanto falavam na sociedade do Rio... Desde que o navio chileno mencionado no convite aportara na capital, sua tripulação vinha sendo constante alvo de paparicos alternados pelos monarquistas e republicanos, cada um dos grupos desejando mostrar aos estrangeiros que tinha mais força no país. Agora, culminando a sucessão de eventos propagandísticos, o primeiro-ministro do Imperador, Visconde de Ouro Preto – que em seu pouco tempo no cargo pouco mais tinha feito que criar desavenças com os militares – achava ser capaz de salvar a monarquia com um suntuoso baile. E queria que a “nata” carioca estivesse presente.
Ao término dos dizeres do convite, fora escrito a mão seu próprio nome, logo após a expressão “Ilustríssimo”, abreviada. Além de todos os benefícios materiais que ganhara do Império, quando de sua volta do Paraguai, adquirira também um título honorífico – a denominação “comendador”, ainda que já decadente devido aos ventos republicanos, servindo para inseri-lo na elite imperial, e por isso tendo sido agraciado com um convite para aquela festa onde estaria somente a nata da sociedade. Há muito se perguntava ser justo ter ascendido a tal grupo devido a ter aniquilado dezenas de outros homens em campo de batalha – seres humanos iguais a si, apenas falando outra língua e servindo a outra bandeira; porém via-se na extrema necessidade de arejar os pensamentos, devanear em meio a pessoas desejosas de abraçar a vida – coisa em que andava vendo pouco gosto. Podia não se sentir parte da nobreza, pensar como ela... mas talvez os risos e gracejos ao menos o ajudassem a recuar alguns passos da beirada do túmulo.
Além disso, havia a invencível expectativa...
Notando que suava frio, apressou-se até uma cadeira na sala parcamente iluminada pelo sol vespertino e sentou-se, o móvel estremecendo assim como ele. Levou a mão ao bolso mais uma vez, agora em busca de um lenço – e este, felizmente, seus dedos encontraram, trazendo-o à testa úmida para secá-la. Seu estado de nervos era lastimável, e parecia que os mais de vinte anos transcorridos após o acontecimento, ao invés de o ensinarem a lidar com as memórias, só as haviam feito piorar. Os sonhos vinham se tornando mais frequentes; e, mesmo acordado, era só fechar os olhos que o rosto surgia nítido em seus pensamentos, chamando-o a se perder no passado... provocando-o.
Trêmulo na cadeira, apoiou as mãos nos joelhos e respirou fundo, a testa recém-enxugada já transbordando novamente de suor. Viu-se sem saída senão empreender mais uma atroz viagem pelas recordações. Tinha esperança, no entanto, de que fosse a última...

II

O mosquete em suas mãos pesava como o mundo.
Nada ouvia. Os últimos disparos da artilharia inimiga, sobre a ponte, haviam sido tão estrondosos que o zunido tampou sua audição. O coração batia como num compasso de marcha, quando subitamente os colegas ao redor de si começaram a correr adiante, uma profusão de fardas azuis compondo uma seta de homens que invadiu a ponte. O coronel certamente proferira uma ordem de avanço, mas ele não ouvira, devido ao seu incômodo estado de surdez. Independente disso, seguiu a turba pelo trajeto, misturando-se aos demais compatriotas.
Os pés ferviam e doíam dentro das botas de campanha; mas estava certo de que a dor dos tiros seria maior se parasse, tornando-se alvo fácil – então continuou. A estreita ponte sobre o Rio Itororó era ponto estratégico para os paraguaios – fortificados na outra margem e por isso tendo um campo de ação privilegiado para seus canhões, maior ameaça contra as tropas da Tríplice Aliança que tentavam atravessar o local. Vinham tentando tomar a posição inimiga pelos flancos; mas ao que parecia, as companhias que tinham atacado primeiro encontraram problemas do outro lado. Agora era a vez deles se arriscarem pela Pátria.
Serviam-na como “Voluntários” – no entanto, somente no nome. O Império passara a recrutar obrigatoriamente brasileiros para sua causa assim que constatou sua má disposição em se aventurar – e morrer – naquela terrível região repleta de charcos e riachos. Muitos dentre os combatentes eram negros, escravos lutando pela promessa de liberdade. Mas a realidade que a maioria encontrava era a deusa “Libertas” romana travestida com capa, foice e um semblante de osso...
Avançaram metros pela ponte, seus olhos assustados e embaçados pelo suor sendo lançados às águas da intensa correnteza outros metros abaixo. Em meio ao rio enxergava-se verdadeira pedreira, diversas colunas e extensões de rocha que se assemelhavam a vil bocarra aguardando a queda de seu alimento, como se o arroio ansiasse por morte. O destino, por sua vez, conferiu-lhe o que desejava.
A artilharia paraguaia agiu. Os projéteis foram disparados de diversas posições inimigas na margem oposta, fulminando os soldados invasores como raios. Ele já havia se envolvido em algumas escaramuças antes, desde a fronteira do país... mas nunca presenciara nada como aquilo. A linha de frente da coluna aliada simplesmente explodiu – pernas, braços e troncos ensanguentados sendo erguidos do solo da ponte junto com espessas camadas de poeira; fragmentos azuis de farda chamuscados e um nauseante cheiro que misturava sangue, pólvora e carne queimada tomando os arredores. Seu primeiro impulso foi frear, correr para longe dali... porém dezenas de companheiros de armas atrás de si praticamente o empurravam, enfrentando os paraguaios com a cara e a coragem – e, por que não, ausência de medo de morrer. Prosseguiu.
Mais um estrondo dos canhões, e mais uma leva de compatriotas se desfez em farelos, seus restos voando para fora da ponte – e ele tendo de encarar o terror de evitar tropeçar nos fragmentos que haviam permanecido sobre ela. A terrível imagem de uma barreira feita de cadáveres e membros mutilados tomou sua mente por um instante, sendo descartada logo em seguida. A realidade já oferecia repugnância suficiente para que tivesse de conjecturar mais a respeito – embora estivesse incerto sobre até que ponto seus superiores iriam para transpor aquele rio, e se para isso chegariam a buscar refúgio atrás dos próprios cadáveres de seus soldados.
Imaginou, então, se eles não estariam sendo enviados justamente para morrer, criando à frente das outras tropas uma mórbida trincheira...
Novo estrondo, com pó e sangue voando sobre seu rosto. Gritos ao redor, ordens confusas, explosões menores – dos mosquetes – somando-se à sinfonia dos canhões. Não sabia como, porém ainda estava intacto; ou então já era uma alma penada vagando pela ponte, o corpo tendo sido destroçado tão rapidamente que sua consciência nem dera conta. Logo os sons tornaram a desaparecer, o zunido prevalecendo – e dessa vez agradeceu aos céus. A cortina de poeira à frente bloqueava a visão do trajeto, mas aparentavam não terem chegado nem à metade do caminho sobre o rio. Fitou a face de um companheiro próximo de si, tomada pelas lágrimas. E, subitamente, a barreira de pó gerada pela artilharia se rompeu por dentro... alguns soldados paraguaios, soltando berros a si inaudíveis, correndo na direção deles com seus rifles apontados. Ao que parecia, não era só a Tríplice Aliança que mandava homens para morrer aquele dia.
Os inimigos tinham a intenção de se engajar em combate corpo-a-corpo, as baionetas dos mosquetes estendidas e brilhando ameaçadoramente ao sol. O soldado que chorava, ao seu lado, não esboçou nem reação, tendo a lâmina de um paraguaio enterrada em seu peito, com um esguicho vermelho brotando da ferida e ensopando tanto seu uniforme quanto o rosto do agressor. Tomado por súbito valor à vida diante da derrocada do companheiro, o indivíduo recordando os acontecimentos, ainda surdo, reagiu ao oponente que se aproximava de si – fincando a baioneta em sua barriga antes que ele pudesse trespassá-lo com a sua. Encarou o semblante do soldado inimigo durante todo o ataque, inclusive a maneira como ele se contorceu – e lacrimejou – quando retirou a lâmina ensanguentada de seu estômago. O moribundo tombou para trás... e um de seus compatriotas, raivoso, já vinha correndo às suas costas para acertar o maldito brasileiro.
Dessa vez não foi tão rápido. Chegou a mover o mosquete para atacar, porém o paraguaio afundou o ferro da lâmina no lado esquerdo de seu peito. Gritou de dor – e, como num pesadelo, foi como se nenhum som pudesse ser produzido por sua boca. Ainda ouvindo somente o zunido, sentiu a visão se enevoar, lançando um rápido olhar ao rio... onde outros de seus companheiros, esfaqueados ou alvejados pelo inimigo, tombavam sobre as pedras duras e afiadas, seus corpos se desintegrando em massas vermelhas.
Quem viesse ao Itororó beber água encontraria apenas sangue.
O soldado inimigo retirou a baioneta de seu corpo, deixando de dar-lhe importância e partindo para se digladiar com outros brasileiros. Lembrava-se de como a dor fora intensa no início, mas em seguida praticamente desaparecera – dando lugar apenas à sensação de não conseguir respirar, ainda que fosse igualmente terrível. Cambaleou junto à murada da ponte, soltando o rifle e abrindo as mãos sob o peito... sobre elas escorrendo litros de substância rubra. Perdeu então o equilíbrio... acabando por cair em cima do parapeito. O corpo girou, com o destino tendo o sadismo de voltar seu rosto justamente para a água enquanto despencava sobre o rio. Vislumbrou mais alguns cadáveres despedaçados e rogou para que pousasse longe o bastante das rochas que pareciam próximas... até que mergulhou na forte torrente do arroio, recusando-se a matar a sede naquele veio de morte. A seguir, seus sentidos desapareceram.

III

Despertou levantando o tronco, colocando-se sentado num só movimento. Sua visão demorou a se reestabelecer, assim como sua mente. Virou a cabeça ao redor, tentando distinguir onde estava, o que havia acontecido... e a escuridão que tomara até então seus sentidos foi apenas parcialmente suprimida, visto que era noite. Ofegou, assustado. Seus dedos tateavam grama sob si, e um vento gélido lhe cortava a pele. Notou estar com o peito nu e os pés descalços, embora conservasse a calça escura da infantaria – ainda que possuísse inúmeros rasgos e marcas de sangue. Não muito longe, os ouvidos escutaram o fluir de um rio – fazendo-o se perguntar tratar-se do Itororó. Foi o murmurar das águas que o fez justamente se lembrar da batalha – todas as sensações e imagens da mesma passando por sua cabeça de uma só vez, como se folheasse um livro de sinistras gravuras.
Constatou, em seguida, o fato de que não sentia qualquer dor – não sabendo se deveria se sentir aliviado ou apavorado em relação a isso. Ficara, afinal, desacordado por quanto tempo? Olhou para o peito, preparado para se deparar com uma ferida grave, talvez gangrenada... e estremeceu quando nada encontrou. A pele sobre o lado esquerdo do tronco, ainda que excessivamente pálida, não tinha qualquer indício de dano, como se jamais houvesse sido perfurada pela baioneta inimiga. Curvando-se sobre as pernas, percebeu também que, embaixo dos rasgos da calça, inexistiam ralados ou lacerações – que certamente teriam surgido quando fora arrastado pelo arroio pedregoso. Voltando a endireitar o tórax, ficou sem ter o que pensar, acabando por erguer os olhos ao céu e contemplar nele uma grande e dourada lua cheia...
- Você não pode mais morrer... – uma voz misteriosa reverberou pelo que parecia ser uma clareira em meio à mata, onde se encontrava sentado, e seu timbre era feminino. – Agora pode batalhar à vontade em mais uma dessas guerras que vocês homens tanto declaram uns aos outros, com maior facilidade do que encontrariam em trocar saudações...
Antes que pudesse principiar qualquer resposta, ele ouviu um som leve, sussurrante, se aproximando. Concluiu sem demora remeter a algo roçando a grama, quase sem tocá-la. Seu olhar baixo logo encontrou um par de pés descalços caminhando à sua direita, de pele castanha, brilhante sob o luar. Erguendo aos poucos a visão, seu atordoado consciente delineou uma jovem de supremo encanto, com o corpo suave e atraente semioculto sob um simples vestido de chita – a mera visão de seu aspecto bastando para acalmá-lo. Os braços, terminando em pequenas e frágeis mãos, ondulavam junto ao vento conforme caminhava, e de sua cabeça pendiam sedosos cabelos negros que se estendiam até a metade de suas costas. Quando voltou a face para o soldado, fez com que se sentisse vítima de estrondoso impacto, o corpo se tornando dormente à visão de seu lindo semblante moreno – tornado mais claro devido a uma intensa palidez – com uma boca de traços delicados, nariz marcante e olhos serenos, compondo inconfundíveis traços indígenas. Em meio ao seu assombro, lembrou-se de como costumava se chamar o Paraguai, país inimigo, devido à gente que ali vivia: “Nação Guarani”.
A jovem se deteve, encarando-o, e por vários instantes ele se viu incapaz de desviar o olhar – acabando por não perceber que o coração, normalmente batendo rápido numa situação como aquela, não emitiu sequer um espasmo; permanecendo duro como uma das pedras do rio.
- V-você me salvou? – ele inquiriu, fascinado e ao mesmo tempo temeroso.
- Sim, salvei – a índia demonstrava índole firme, embora sua voz fosse melodiosa e encantadora. – Talvez tenha sido a parte humana que resta em mim... aquela chamada de “misericórdia”... Seu corpo estava em frangalhos, arrastado e moído pelas águas do Itororó, que nada perdoam. Mas uma fugaz chama de vida ainda restava em seu peito. Tudo que fiz foi aumentá-la, porém não simplesmente como se fomenta o fogo de uma vela. Eu a substituí por uma nova chama, negra... que agora queimará pela eternidade. E não se engane: eu também precisava me alimentar. Considere que fizemos uma troca.
O combatente continuou contemplando-a de modo vazio, sem compreender o que lhe dissera. Assimilara, apenas, que aquela intrigante mulher lhe havia devolvido a vida. Enquanto ela se virava de costas, indagou, levantando-se do solo ao constatar ter forças suficientes para isso:
- Qual é seu nome? Quem é? É algum tipo de... curandeira?
Já ouvira falar muito das artes medicinais que os gentios dominavam, conhecendo plantas e substâncias da natureza capazes de realizar verdadeiros milagres. Não estava certo de ser aquele o caso ali – porém tinha de saber.
- Pelo contrário – ela replicou num suspiro, sem se virar. – Eu trago apenas ruína, não cura. Vago pelas planícies alagadas há séculos, desde que o homem branco trouxe para estas terras a maldição que até então assolava apenas o mundo do outro lado do mar. Mas agora não é mais necessário que nós, filhos da noite, da grande Araci, tragamos a desgraça ao nosso povo. Vocês, invasores, fazem isso por nós.
- Eu nunca quis lutar nesta guerra, meu país realizou recrutamento forçado! – exclamou o soldado, tomado por súbita ira. – Além disso, Solano López nos invadiu. Este país é mais culpado pelo conflito que...
- Enquanto os grandes homens brancos, trancados em seus palácios e agarrados aos seus tronos, brincam de declarar guerra, é o povo, meu povo, quem paga com sangue. Não pense que, dando-lhe novo sopro de vida em troca de me alimentar de seu fluído, sua dívida foi quitada. Exijo um preço de você por esta segunda existência. Ao terminar da guerra, retornará ao Rio de Janeiro, coração da civilização americana. Sua missão será destruir esse império que faz meu povo sangrar, que extermina os velhos e as crianças guaranis. Com o poder que detém agora, não encontrará dificuldade nessa justa tarefa. Aí sim, após o reino sob a flâmula verde e amarela ter sucumbido, sua dívida estará verdadeiramente paga. O débito de sua gente para com a minha.
Súbito, um grito masculino veio da mata em torno da clareira. O soldado distraiu-se por um mero momento, olhando para trás... e, quando retornou a visão para a índia, ela havia desaparecido sem deixar rastro. Fitou em volta, em busca de algum vestígio da jovem, na esperança de poder contemplar sua beleza ao menos por mais alguns segundos... mas sua demanda foi em vão. O barulho nas cercanias aumentou, e ele pôde distinguir falas em espanhol. Combatentes da infantaria inimiga provavelmente se aproximavam, misturados à vegetação. Aturdido, apressou-se em busca de refúgio, quando uma confusão de impressões tomou seus sentidos. Ouvia com extrema nitidez, além do farfalhar da mata e das falas trocadas entre os paraguaios, uma cadência de batidas, que logo se converteu em duas, três... aceleradas. Captou também um cheiro novo, estranho... e intenso, que de um instante para o outro teve o inesperado efeito de abrir-lhe o apetite.
Sangue?
De repente, o ímpeto de se esconder deu lugar à ânsia pelo enfrentamento, sem que sequer compreendesse a si mesmo. Correu em direção à floresta, atingindo uma velocidade que jamais pensou poder conseguir, movendo-se como uma fera raivosa... e esfomeada. Arbustos e galhos se chocaram contra seu rosto quando imergiu na mata, sem que se importasse... os cortes causados pelos espinhos se fechando tão logo eram abertos. E, metros adiante, ele saltou para a margem do rio cujo correr ouvira anteriormente... derrubando com as mãos um combatente paraguaio e imobilizando-o junto ao chão.
O inimigo gritou, apavorado, enquanto contemplava seu semblante. Aquilo não era apenas susto; algo em seu aspecto realmente o aterrorizava. A vítima soltou a bexiga, molhando as calças de campanha... ao mesmo tempo em que o brasileiro cravava os dentes caninos em seu pescoço, fazendo verter grande quantidade de sangue – a qual foi absorvida pelo autor da mordida de modo sedento, como água em meio ao deserto. Os berros cessaram, e logo também os movimentos do paraguaio, entre espasmos incertos. Seu líquido vital continuou sendo sugado pelo oponente... quando, num certo momento, ergueu o rosto com a boca tingida de rubro, passando a observar o fluir do arroio – que era mesmo o Itororó, a julgar pelas pedras.
Naquele dia, mais cedo, durante a encarniçada batalha, preocupara-se quanto às águas do rio terem se convertido em sangue. Agora, esse era seu exato desejo; enquanto a hipnotizante figura de uma índia – por meio de dor e medo – era gravada no mais fundo de seus pensamentos.


IV

A barca chegou à Ilha Fiscal apinhada de convidados, sob um céu estrelado que levava a crer que os astros também desejavam admirar o luxo daquela festa. O local havia sido convertido num verdadeiro palácio de luz, visível a milhas de distância, clareado por milhares de lanternas venezianas numa fascinante miríade de cores, com bandeiras brasileiras e chilenas dispostas por toda parte. Na área de entrada, uma bela pintura mostrava ninfas e golfinhos – mágicas criaturas marinhas – saindo do oceano para receber os marinheiros do Almirante Cochrane, numa alusão às moças – estas de carne, osso, e circulação pulsante – vestidas de sereias e fadas que vinham acolher os convidados. A imprensa do Rio descrevera o lugar do baile, em suas últimas publicações, como um legítimo paraíso terreno. Seria aquele mesmo um “paraíso” para ele, depois do inferno da guerra? Seria ingênuo acreditar...
Seguindo a turba e tendo seu semblante pálido semioculto sob a sombra da grande cartola que trazia à cabeça, o veterano da campanha do Paraguai adentrou um dos salões especialmente preparados para o baile. Deparou-se com uma extensa mesa de jantar, em forma de “U”, coberta dos mais variados e requintados pratos – tendo grandes e imponentes pavões, com as caudas abertas repletas de pequenos olhos, ostentando às suas cabeceiras o luxo dos pavões humanos da Corte Imperial. Se não fosse por sua imobilidade, não se veria nada que contribuísse para a constatação de que aquelas suntuosas aves estavam, na verdade, empalhadas.
Ele não se sentia parte daquilo; nem fazia questão de se sentir. Caminhava pelo ambiente da festa como um fantasma, recebendo olhares de reprovação aqui e ali – talvez por seu aspecto mórbido, levando em consideração o terno escuro e as luvas brancas que usava. Trazia, ainda assim, suas condecorações da guerra, polidas e brilhantes, presas ao traje – embora este não fosse o militar, como mandava a etiqueta, e provavelmente por isso gerando ainda mais embaraço alheio. Fazia-o puramente por ironia, justamente para mostrar como muitos dos convidados daquele baile só podiam pisar nele por sua presteza em tomar parte no extermínio de um povo inteiro, vinte anos antes – enquanto muita gente honesta, porém pobre, não podia vislumbrar a festa a não ser de longe, das areias da praia.
Porém não fora apenas por isso que se decidira a tomar parte na comemoração. Estava certo de que encontraria alguém ali... a pessoa que assombrava há tanto tempo seus sonhos e lembranças. Ela com certeza não ignoraria aquela reserva de sangue tão farta, do mais fino trato, e a oportunidade de acertar as contas com aquele que não havia cumprido suas severas instruções, após o breve encontro que tiveram...
Continuando a andar pela ilha, o veterano acabou adentrando uma região, às sombras do castelo, que estava praticamente desprovida de luz – coisa difícil de crer possível num recinto tão brilhante como aquele. Com sua aproximação, um casal assustado – com a mulher, até então, sentada com a saia erguida no colo de um jovem de fraque – saiu correndo rumo a um dos salões abarrotados de convidados, deixando o antigo soldado imperial sozinho em meio às trevas. Assim permaneceu por vários instantes, ouvindo o som da primeira valsa ao longe e as ondas se quebrando junto à orla da ilha, quando seus sentidos sobre-humanos detectaram movimento na escuridão.
Sempre atento, voltou-se para o barulho... e se deparou, aos pés da parede do castelo, com um grande rato cinza, guinchando enquanto acelerava em sua direção. Em questão de instantes, não para sua surpresa, outros roedores se somaram ao primeiro, saindo dos alicerces da construção, brotando de pequenas frestas e vãos da alvenaria... subindo até mesmo pelo cordame que prendia alguns barcos menores à terra, como se aqueles animais houvessem nadado do continente até ali. Logo se somavam às dezenas, quiçá centenas, numa montanha viva bem diante do veterano – os ratos passando a morder uns aos outros, em repugnante canibalismo, conforme se amontoavam. O som dos guinchos se intensificou, sangue vertendo das feridas abertas no pelo e patas dos animais... até que a aglomeração foi tomada por uma névoa, com os sinistros roedores fundindo-se entre si. Conforme desapareciam, davam forma a uma figura humanoide que passou a se erguer lentamente da massa de roedores, de início toda peluda e disforme, como se fosse uma versão gigantesca dos mesmos... para, ao final, tomar os sedutores contornos de uma mulher, usando belo vestido rendado, meias e sapatos de salto alto – todos pretos. Os longos cabelos lisos, na mesma cor, caíam-lhe até quase a cintura... e a face, embora bem maquiada, não ocultava a pele morena e os inconfundíveis traços indígenas. Trazia, numa das mãos, uma máscara ornamentada com brilhantes, tendo aberturas para os olhos e presa a uma pequena haste. Trouxe-a até o rosto e, passando perfeitamente por uma dama da sociedade imperial, soltou longa risada – diante do impassível espectador.
- Eu sabia que você viria... – ele murmurou, ficando onde estava.
- O que você esperava? – ela gracejou, ao término do riso, removendo a máscara da fronte. – Vim no navio chileno. Pude assim me alimentar razoavelmente bem durante a viagem. Esses marinheiros deveriam ficar gratos ao governo deste país por terem-nos fartado com tanta comida. Alguns já tinham muito pouco sangue naqueles corpos esguios...
- O que quer aqui? – seu tom era firme. – Vá embora, ou encare as consequências.
- Vejo que você é muito mais sentimental do que eu, que o salvei naquele rio... E veja quanta ingratidão! Vinte anos. Vinte anos para cumprir seu objetivo... e ficou isolado numa casa que ganhou de esmola do seu Imperador, esperando uma morte que nunca virá por meios naturais. Já que não vai fazer seu trabalho, eu vim cumpri-lo no seu lugar. A nata da sociedade de seu império está aqui. Nobres, militares, o próprio governante e sua família. Caso não queira tomar parte em meu banquete, então não fique em meu caminho. Volte para sua residência humilhante, e não se esqueça de se ocultar nas sombras quando o dia raiar. Esta noite, meu povo será vingado!
- Foi uma barbárie o que aconteceu com seu povo, mas você não vai matar ninguém aqui hoje. Volte para a costa assim como veio – a voz do soldado era, apesar de tudo, calma.
- Você é tão honrado, não é? Diga-me, foi honrado viver do sangue de tantas pessoas para continuar existindo por esses vinte anos? Nós não podemos ser honrados, cria minha. Vivemos apenas para uma coisa: sangue. Se ele tiver de ser derramado, que seja por motivo justo!
- Só há uma pessoa de quem desejo derramar o sangue aqui hoje, e ela não é humana...
- Por que você defende esses mortais? – ela subitamente explodiu, abrindo os braços. – Luta por um império tão decadente, que ele cairá mesmo sem minha intervenção. Enquanto os ricos festejam aqui às custas dos humildes, os partidários republicanos tramam, em reuniões, a queda do Imperador. Enquanto você vagava pelas ruas desta cidade se alimentando de alguns, a Inglaterra cravou seus dentes no Brasil e espolia suas riquezas há décadas. Diga-me, por que defender essa gente?
Seguiu-se breve silêncio, com o som abafado da valsa chegando até ali e o mar continuando a quebrar contra a ilha. Logo depois, o veterano afirmou:
- Foi interessante você ter mencionado a presença inglesa no Império. Através dela, pude ter contato com um professor holandês, que projetou maior luz sobre os estudos que tenho feito nos últimos vinte anos sobre minha nova condição... Conhece Abraham Van Helsing?
E, conforme concluiu suas palavras, retirou uma estaca de prata, do tamanho de seu antebraço, de baixo do terno, passando a segurá-la com ambas as mãos.
- Você não teria coragem...
- Tenho.
Sem mais delongas, o combatente avançou, com a estaca apontada para o peito da inimiga. Devido à proximidade e à surpresa da adversária, ela não reagiu a tempo, tendo o artefato cravado em cheio em seu coração morto. Com um horripilante grito, ela arregalou os olhos e desfaleceu nos braços do veterano... transformando-se, em seguida, num amontoado de cinzas, que cobriram boa parte do traje de gala do convidado. Suas roupas, vazias, tombaram sobre o solo, como se nunca houvessem deixado de vestir apenas um espectro, um fantasma.
Novamente sozinho, ele recobrou o ar, ofegante. Mais sons passaram a provir do baile: risadas, o tilintar de taças, a valsa se transformando em polca... A ilha aparentava ter ganhado ainda mais vida com a eliminação da ameaça. O momento pelo qual tanto ansiara chegara e já se fora.
Mas ainda não havia terminado, como ele bem sabia.
Passou um momento imóvel, fitando o mar, com as luzes da cidade ao longe...
E por fim, somando coragem, enterrou a estaca de prata em seu próprio peito, caindo de joelhos. Retorceu-se de forma violenta, os dentes cerrados de dor fazendo sua boca sangrar, porém a agonia foi rápida: seu corpo também se desfez sem demora em pó, deixando para trás o terno, a cartola, os sapatos... e as fulgurosas medalhas obtidas na Guerra do Paraguai, únicos objetos ali abandonados que não foram sumamente levados pelo vento.

Luiz Fabrício de Oliveira Mendes – “Goldfield”.
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