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Profundidade Vermelha

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Profundidade Vermelha

Mensagem por Geeh*-* em Sab Jan 12, 2013 11:35 am

Profundidade Vermelha

Por Géssica Freitas




Ah! O sol batendo na minha cara. Eu esqueci de fechar a porcaria da cortina de novo. Eu tinha que abrir os olhos, levantar, e encarar tudo. Mas eu estava tão cansada, e com sono... E ainda era tão cedo.
O barulho estridente e chato do despertador. Tentei em vão apertar o travesseiro contra minhas orelhas.
- É, talvez não seja tão cedo assim. – Exclamei sozinha.
Levantei lamentando, e olhei pra janela. Estava um lindo dia para não acordar, como sempre. Fechei a cortina bruscamente, e virei para encarar a confusão mal resolvida que era o meu quarto.
- Anabell, já acordou filha? - Minha mãe gritou do andar de baixo. Eu realmente deveria tentar ser mais legal com a minha mãe, ela foi a única que sobrou.
- Já mãe. – Gritei de volta.
Que saco. Fui pro banheiro, criei coragem e encarei o espelho. Eu estava ridícula. Não que isso já não fosse novidade, mas dessa vez eu estava realmente ridícula. Mais do que nos outros dias.
Cabelos embaraçados e rebeldes, sem brilho, parecidos com um ninho de ratos. Pele pálida, branca como a neve, o que destacava ainda mais as profundas olheiras e escuras que cobriam meus olhos. Os lábios secos, e meio murchos. E a expressão vazia. Mas essa eu já conhecia de tempos...
Escovei os dentes, penteei os cabelos, e lutei e rezei para que ficassem no lugar. Ou pelo menos acho que rezei. Rezar é só pra quem tem fé não é? Então talvez eu tenha feito outra coisa. Coloquei minha calça jeans apertada que eu gosto, uma camiseta qualquer, e meu all star. Coloquei as minhas várias pulseiras de sempre, que eu usava para esconder das pessoas e de mim o quão eu era fraca. Peguei minha mochila que estava jogada num canto, e desci as escadas, indo para a cozinha, onde minha mãe já preparava o café.
- Bom dia filha.
- É... – Só se fosse pra ela, porque o meu já estava uma boa droga.
Peguei um cookie em cima da mesa, e caminhei para o carro, mas não antes de captar no rosto da minha mãe, uma objeção pela pequena quantidade de comida, mas acho que como ela viu que meu dia estava para poucos sorrisos ela não disse nada.
O caminho pra escola foi silencioso. Quando chegamos, porém, minha mãe resolveu falar.
-Filha, você não comeu nada de manha.
- Um cookie.
- Isso não é o suficiente, e você sabe.
Balancei os ombros e não respondi. Tudo o que eu menos queria agora era brigar de novo com a minha mãe sobre comida. Quando sai do carro, minha mãe pigarreou, para que eu a olhasse.
- Quem vem te buscar hoje é seu pai filha.
- O meu pai morreu mãe. O Carlos não é a porra do meu pai.
Sai andando, e pisando forte. Agora sim o dia estava perfeito. Eu o odiava. Carlos era o novo marido da minha mãe, e sinceramente, não sei o que ela viu nele. Ele era babaca. Um idiota viciado em jogos, e tabaco. Era bonito admito, mas isso não é motivos o suficiente pra se casar com alguém.
Coloquei os fones no ouvido, e caminhei pra sala, ignorando tudo e todos ao meu redor. Larguei minha mochila na mesa, e fechei os olhos, viajando pra outro mundo ao som de “What if the storm ends, do Snow Patrol”.
Antigamente eu estaria cercada de amigos, rindo e conversando. Antigamente. Mas a culpa é minha. Eu afastei tudo e todos, porque não soube lidar com a vida. Mas não vou pensar nisso agora, não vou pensar nisso nunca mais.
Um sorriso de canto aparece no meu rosto. Falar é fácil.
As aulas passaram voando, e rastejando ao mesmo tempo, como sempre. Voando porque são como um borrão pra mim, já que ao final de cada uma, percebo que não absorvi nada, porque não prestei atenção de novo. E rastejando porque embora demasiadas escuras e sem aprendizado algum, ainda são dolorosamente lentas.
O sinal do almoço me despertou dos meus devaneios. Me levantei, peguei a mochila, joguei nas costas e recoloquei os fones de ouvido. Caminhei lentamente, ignorando todos. E entrei na fila pra pegar comida, organizando tudo na bandeja, sem realmente prestar atenção no que eu iria comer. Virei, e andei para a mesa no fundo do refeitório, vazia como sempre, e que eu já tinha marcado como minha. Estava tendo uma confusão em um dos cantos. Alguns meninos brincando, provavelmente de alguma coisa demasiada infantil para sua idade. Ignorei-os com sucesso, quando um dos engraçadinhos saiu correndo do outro, e embarrou fortemente em mim.
- Vocês estão na porra do segundo colegial, se comportem como tal! – Gritei, mas antes que percebesse o chão me faltou, e eu cai, estabanada, no meio do refeitório inteiro. E em apenas um instante, todo o que eu podia ouvir eram risadas. Todos riam de mim. Nenhum deles preocupados em esconder o quanto se divertiam as minhas custas. Alguns até me apontavam, e pelo canto do olho, pude ver um dos meninos se jogando no chão de tanto rir, provavelmente pra fazer uma graça e se aparecer.
Segurei as lágrimas com força. Você não vai chorar aqui Anabell, todos já estão rindo de você, você não precisa disso, você não vai chorar aqui. Dizia isso pra mim mesma repetidas vezes, enquanto me levantava. Quando eu consegui levantar, agradecendo internamente por não ter escorregado ou algo do tipo, retirei as batatas grudadas na minha camiseta. O molho pingava do meu cabelo, e o macarrão estava no chão. Eu não poderia ter escolhido uma refeição melhor, meu subconsciente pensa com ironia. Peguei minha mochila, e meu celular no chão, e caminhei devagar para fora do refeitório, tomando cuidado pra não cair, mas assim que sai do campo de visão de todos, comecei a correr... Corri o mais rápido que pude. Atravessei a escola e me tranquei no ultimo banheiro, que estava vazio, graças a Deus.
Comecei desesperadamente a lavar o molho do meu cabelo, e quanto mais eu lavava, mais parecia sujo. Quando finalmente parou de escorrer água vermelha dos meus cabelos, me levantei e encarei o espelho. Lágrimas escorriam por meus olhos como navalhas. Espera, navalhas? Meu pulso formigou. Retirei as pulseiras, e o encarei cor dor. Ali haviam marcas recém cicatrizadas, que simbolizavam toda a minha fraqueza e dor.
Repire Anabell, você não precisa disso. Se controle. Ais lágrimas escorriam. Você não precisa disso, por favor! Eu gritava pro meu subconsciente.
Mas doía tanto. Todas aquelas pessoas me fazendo de chacota, ninguém pra me ajudar. E ai então todas as lembranças me engolfaram. Meu pai, Carlos, minha mãe, meus ex amigos, meu ex namorado, todos os cortes, todos os motivos...
Talvez só um... Só um bastava.
Tirei meu celular de dentro do bolso, e abri a parte de atrás, o que revelaria a bateria. E ali estava ela. Pequena, cintilante, parecia brilhar cada vez mais para mim. A lâmina de navalha que coloquei ali tempos atrás. Tão linda.
Peguei-a com cuidado, e a coloquei no canto da pia. Fechei o celular e coloquei de volta do bolso. Depois encarei a lâmina, segurando-a com cuidado, e levantei o rosto. O espelho a frente me denunciava. O nariz estava vermelho, os olhos inchados por conta das lágrimas, os cabelos longos e escuros que já foram lindos, colados no rosto por conta da água, a camiseta colada também pela água, revelava meus seios minúsculos.
- Eu sou tão ridícula! – Gritei. Mais lágrimas.
Segurei a lâmina com força. Parte de mim dizia para jogar aquilo do outro lado do banheiro, mas uma outra voz sussurrava: “Vai lá, você consegue. Um corte só e vai fazer toda a sua dor passar. Respirei fundo. Derrotada abri a torneira e me aproximei mais da pia. Fechei os olhos, subi a lâmina, criei coragem, e passei rapidamente por meu pulso.
Instantaneamente senti o sangue escorrendo por meus dedos, e caindo como gotas na pia. Abri os olhos, e vi a pia branca, manchada por uma corrente convidativamente vermelha. Meu pulso ardia. Uma ardência quase insuportável, mas que logo deu lugar a um conforto infinito. Estava fazendo efeito finalmente. Lavei o pulso, e as mãos duas ou três vezes, e pressionei com papel para que parasse de sangrar. Quando o fluxo começou a diminuir, enrolei o pulso numa grossa camada de papel, e apertei bem, como um torniquete, e me sentei no chão do banheiro, apoiando a cabeça no azulejo. As lágrimas haviam secado em meu rosto, e eu senti o cansaço cair em mim.
Estava feito. Tudo ficaria bem agora.
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Re: Profundidade Vermelha

Mensagem por Corvo em Seg Jan 14, 2013 7:32 pm

Forte. Uma leitura bem potente, em que os sentimentos negativos parecem jorrar pra fora da tela a cada parágrafo.

Há um certo charme na contundente falta de esperança presente na narrativa: no fundo do poço, a escuridão engolfa qualquer raio de luz.

Cê tem talento, guria.

Eu estava ridícula. Não que isso já não fosse novidade, mas dessa vez eu estava realmente ridícula.

Essa frase não fez sentido. Do jeito que você escreveu, com esse "já", fica parecendo que é realmente uma novidade. O correto seria "não que isso fosse novidade" ou "não que isso ainda fosse novidade".

viajando pra outro mundo ao som de “What if the storm ends, do Snow Patrol”.

As aspas, nesse caso, cercam apenas o título da música. No caso, ficaria: "What if the storm ends", do Snow Patrol.
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Re: Profundidade Vermelha

Mensagem por Giovanna Salvatore em Ter Fev 19, 2013 2:40 pm

Oww, fanfic perfeita. Meww, muito boa. Continua logo Very Happy
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Re: Profundidade Vermelha

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